Dia da Consciência Negra

Antes de Dom Pedro pronunciar a famigerada frase “Independência ou morte” às margens do riacho Ipiranga em 1822, o Brasil viveu um período colonial de muita luta até 1815. Um dos principais representantes históricos deste contexto, é Zumbi dos Palmares – nascido em 1655 no estado de Alagoas. Rebelado contra a escravidão, foi líder de uma comunidade livre composta por escravos fugitivos chamada Quilombo dos Palmares, localizada na Serra da Barriga que é, atualmente, União dos Palmares (AL). Capturado aos sete anos de idade e entregue a um padre, fora batizado e recebeu o nome de Francisco. Retornou ao Quilombo quando completara 15 anos e resistiu bravamente até sua morte em 20/11/1695 quando foi destruído pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho e sua tropa. O ocorrido culminou no feriado do Dia da Consciência Negra, comemorado apenas em algumas partes do país. A morte de Zumbi é explicada didaticamente por Eduardo Galeano no livro As Veias Abertas da América Latina:

“(…) Porém, tempos antes dos djukas, os escravos quilombolas do Brasil haviam organizado o reino negro de Palmares, no nordeste do Brasil, e vitoriosamente resistiram, durante todo o século XVII, ao assédio das dezenas de expedições militares que se lançaram para abatê-lo, uma atrás da outra, os holandeses e portugueses. As investidas de milhares de soldados nada podiam contra as táticas guerrilheiras que tornaram invencível, até 1693, o vasto refúgio. O reino independente dos Palmares – convocatória à rebelião, bandeira da liberdade – havia-se organizado como um Estado ‘à semelhança de muitos que existiam na África no século XVII’. Estendia-se desde as vizinhanças do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, até a zona norte do rio São Francisco, em Alagoas: equivalia à terça parte do território de Portugal e estava rodeado por espesso cerco de selvas selvagens. O chefe máximo era eleito entre mais hábeis e sagazes: reinava o homem ‘de maior prestígio e felicidade na guerra ou no mando’. Em plena época das plantações açucareiras onipotentes, Palmares era o único lugar do Brasil onde se desenvolvia a policultura. Guiados pela experiência adquirida por eles mesmos ou por seus antepassados nas savanas e nas selvas tropicais da África, os negros cultivavam o milho, a batata, os feijões, a mandioca, as bananas e outros alimentos. Não é em vão que a destruição dos cultivos fosse o objetivo principal das tropas coloniais lançadas para recuperar os homens que, depois da travessia do mar com correntes nos pés, haviam desertado das plantações. A abundância de alimentos de Palmares contrastava com as penúrias que, em plena prosperidade, padeciam as zonas açucareiras do litoral. Os escravos que haviam conquistado a liberdade a defendiam com habilidade e coragem porque compartiam seus frutos: a propriedade da terra era comunitária e não circulava o dinheiro no estado negro. ‘Não figura na história universal nenhuma rebelião de escravos não prolongada quanto a de Palmares. A de Espartaco, que comoveu o sistema escravagista mais importante da Antiguidade, durou 18 meses. Para a batalha final, a Coroa Portuguesa mobilizou o maior exército conhecido até muito tempo depois da independência do Brasil. Nada menos de dez mil pessoas defenderam a ultima fortaleza de Palmares; os sobreviventes foram degolados, lançados pelos precipícios ou vendidos aos mercadores do Rio ou de Buenos Aires. Dois anos depois, o chefe Zumbi, a quem os escravos consideravam imortal, não pôde escapar à traição. Encurralaram-no na selva e cortaram-lhe a cabeça. Porém as rebeliões continuaram. Não passaria muito tempo para que o capitão Bartolomeu Bueno do Prado regressasse do rio das Mortes com seus troféus da vitória contra uma nova sublevação de escravos. Trazia três mil e novecentos pares de orelhas nos alforjes dos cavalos.”

Dia da Consciência Negra

Ao longo dos anos, a luta por direitos equalitários na sociedade vem se tornando mais forte, fazendo com que os negros conquistem seus respectivos lugares. É indiscutível que o Brasil seja um dos países mais miscigenados do mundo e mesmo assim o preconceito perdura, fazendo com que o Dia da Consciência Negra tenha um significado extremamente representativo. No dia 10/11/2011, a data foi instituída oficialmente pela lei nº 12.519 e também faz forte referência ao então líder do Quilombo dos Palmares. Vale ressaltar que o dia exato da morte de Zumbi foi descoberta por historiadores na década de 1970, motivando membros do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial a elegerem Zumbi como ícone de luta e resistência dos negros ecravizados no Brasil, em um congresso realizado em 1978, quando o país ainda estava sob ditadura militar. Atualmente, o feriado é legalizado apenas nos estados de Alagoas, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Roraima e São Paulo. Ano passado, o então senador Randolfe Rodrigues propôs que a data se tornasse um feriado nacional, justificando para o jornal Correio Braziliense que “o estabelecimento desta data como feriado nacional é de grande relevância para que essa parcela da sociedade, que representa mais da metade de nossa população, receba mais um aceno público e oficial de sua importância para o Brasil” e ainda complementou: “Nós somos resultado da mistura do branco, do indígena, do negro… e o Estado reconhecer essa data seria como um tributo contra tudo o que representou a escravidão”.

Dia da Consciência Negra

Confira abaixo o vídeo especial exibido no programa Sem Censura 🙂

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